sábado, 20 de junho de 2015

Ciclo

   Imagens que se misturam. Ideias absurdas. Cruzamentos sem sentido. Pálpebras que se abrem e... Aguardam. Naquele instante tudo se decide. 
     Há dias em que o diafragma não desce. A fisiologia contraria a função que lhe foi imposta pela natureza e teima em ceder a uma parte específica da massa miocárdica. Nesses dias, a apneia pode atingir vários graus, chegando às vezes a parecer total. Mas o ar terá de lá chegar, de uma forma ou de outra e, assim, minutos depois das pálpebras se abrirem e adivinharem o futuro desse dia, o corpo reage. E move-se, mecanicamente, em direcção a um objectivo mal definido, mal desejado, mas essencial. 
    O dia passa. Há minutos que parecem horas, horas que são dias. Mas ele passa... E nesse entretanto a apneia dissolve-se. Mistura-se com adrenalina, umas vezes. Noutras é empurrada pela memória. E, quando se dá conta, a noite chegou.
    Nestes dias, contudo, a noite traz os cheiros e sons de antes, imersos agora num ambiente estático e ruidosamente silencioso. O ar torna- se denso, poluído e, de novo, difícil de respirar. As pálpebras forçam-se a fechar, tentando transformar- se em cortinas de final de peça teatral. Mas revelam-se demasiado ambiciosas e o espectáculo continua, inundado por repuxos convulsivos de água e sal, difíceis de suster, contendo em si todo um dia de mágoas e saudades.
    Até que, por força do cansaço ou da química exterior, o sono regressa. E o ciclo reinicia-se.

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