quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Certezas


 Fecho a porta  oiço um vazio
vou querer sobreviver ao dia de amanhã

olhos, cenas que não vou lembrar
hei-de encontrar, dignificar o sol de uma manhã

e agora, fraco ou forte, só me resta ir
e acredito que no mundo há flores por abrir
mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu

Juntos sou eu
só eu

The Gift

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Sombras

There's no one left in the world 
I'm gunslingin'
Don't give a damn if I go
Down down down
I got a voice in my head that keeps singin'

My heart is a ghost town.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Coisas

"Um sol magnífico, o céu azul, mas ninguém com quem os partilhar, nada que fazer. É mais difícil viver assim no verão, da maneira como eu tenho vivido, quando os dias são tão longos, há tanta luz, tão pouca ajuda da noite, com toda a gente na rua a ser tão obviamente e tão agressivamente feliz. É esgotante, e faz-nos sentir ainda pior, por não nos podermos juntar à festa."


The Girl on The Train

domingo, 12 de julho de 2015

Caixas

 Tenho a vida em caixas. Grandes, médias, pequenas. Não propriamente divididas por categorias, mas distribuídas por diferentes tamanhos e formatos. Caixas espalhadas por cantos, dispostas aleatoriamente, a aguardar a sua vez.
  Como a vida, no fundo. Que se coloca em compartimentos - passados, presentes, futuros - a aguardar, também, que alguém a arrume no local correcto. Mas haverá sequer algum local correcto para arrumar tudo isto? Haverá sequer algum lugar "correcto" para alguma coisa?  
 Tendemos a querer fazer com os momentos, emoções ou sentimentos o que fazemos com objectos em mudança, como se de alguma forma fosse mais fácil viver com uma ordem imposta por nós próprios. Mas como arranjar caixas para "memórias a guardar", " memórias a esquecer", "sentimentos para arquivo", " sentimentos em projecto", "emoções adequadas", "emoções impróprias"?... Há tantos que ficam no meio, no limbo, sem definição, esperando eternamente o seu enquadramento!... Tantos que, no final, nunca serão enquadráveis. Porque não têm de o ser!...   
  Porque há o preto, o branco, mas algures no meio há imensos tons de cinzento, suplicando por existir.
  Não quero a vida desenhada totalmente a cinzento. Mas também não quero o preto e branco, apenas. Quero cor, muita cor! Cheia de luz, de contraste, de liberdade. 
  Quero toda a cores do mundo... Todas elas fora de caixas.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Escritos

“I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practise resignation, unless it was quite necessary. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life, to live so sturdily and Spartan-like as to put to rout all that was not life, to cut a broad swath and shave close, to drive life into a corner, and reduce it to its lowest terms.”

     Henry David Thoreau


domingo, 28 de junho de 2015

Nenhures


We're on a road to nowhere
Come on inside 
Takin' that ride to nowhere
We'll take that ride

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Mecânica

   Entrada em contramão numa estrada com lombas. Cilindros compostos ajudam a injectar combustível. Primeiro um salto, depois outro, depois... Mais um. Para cima, para baixo, o embate é seco e cru. Uma luz avisadora aparece e aconselha pausa. É melhor parar por ali...
  Ao longe, uma estrela, cadente. De novo, movimento e sentido correcto. Marcha de cruzeiro, tranquila, neutra, confortável. Velocidade controlada e respeitada. Enquadramento adequado nas linhas lateral e central. Manuseamento suave do volante. 
  Mais perto, sons e vocalizações diversos aguçam os cinco sentidos. Nova pausa, agora sem luz avisadora. E novo arranque accionador do mecanismo do turbo. Uma aceleração... Muitas. Inesperadas e inconstantes, que obrigam a uma resposta rápida e não pensada. Abandona-se o conhecido e confortável.
   Viragem à esquerda, sem pisca, comandada apenas pela vontade. O turbo mantém a sua acção intermitente, ao sabor dos segundos. O escape não emite poluição, pelo que a vista exterior é clara.  Nem sempre, porém... nuvens cinzentas mostram-se também ao vidro dianteiro. 
    A viagem, o deslizar, por vezes é assertivo, noutras hesitante. Mas a condução é suave, no geral. O que permite segundos de relaxamento pelo condutor (intercalados com momentos de concentração aparentemente relevantes) e pelos passageiros.
    Uma placa aparece e revela um destino conhecido. Nesse momento,  sente-se um discreto a moderado engasgamento do motor. Umas perdas eventuais de água do radiador... Com isto, medo da avaria, não comentado... 
    Contudo, um atempado colocar de pé no pedal da embraiagem evita o desligar abrupto. A condução suave é retomada, num ambiente pacato, mas estimulante.
   A viagem prossegue, sem esquecer uma paragem para atestar o depósito. A transferência de gasolina é rápida, mas dotada de um enorme poder de renovação e entendimento entre os dois lados. Sem sinal de cansaço ou desejo de terminar o percurso, sucedem-se os minutos até ao regresso a casa.
    À chegada, na última paragem, o motor é desligado, ficando por segundos a questionar o término da sua acção. Conclui que a sua performance foi muito boa... E pouco frequente. Será melhor não parar por ali?

Colisão


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Estranha

   Desce as escadas, saltitando os degraus dois a dois, como se isso pudesse antecipar o seu habitual atraso. Desde há meses que os dias começam mais tarde... O cérebro demora mais tempo a processar as mensagens que a retina lhe transmite, ao acordar. 
   Roda a chave do carro, deixando que o novo ruído lhe transmita alguma sensação de reconhecimento e conforto - tudo mudou, mas àquele ruído foi fácil adaptar-se. Avança a uma velocidade moderada, alternando entre a cautela e a pressa. Ao fundo, música... conjunto de sons do qual de desabituou, excepto naquele ambiente. 
  Mas nesse dia as colcheias (e afins) assentam-lhe bem e, estranhamente, apercebe-se de que conseguiu respirar melhor. E quase que podia jurar que, sem pedir licença, um sorriso tinha tomado conta de si, com um aroma floral, primaveril. E, durante esse tempo, sente o coração cheio.
   Talvez por isso também, pouco tempo depois, as lágrimas começam a cair. Duas a duas, quatro a quatro. Sem controlo, sem filtro. Contudo, sem desespero. Só lágrimas simples. De perda, de saudade, mas também de memórias antigas... e recentes. 
  Tudo está desarrumado, caótico, perdido, à deriva... No entanto, nesse momento, o caos não a paralisa ou faz querer desistir. Apesar do medo que causa, sente a alma cheia, de novo. Cheia de tudo, de todos. Tão cheia que dói. De boa, de imensa, de estranha.
   De boa... De imensa... De estranha.

Pausa


There's just one life to live
And there's no time to waste 
... Give your heart a break

sábado, 20 de junho de 2015

Ciclo

   Imagens que se misturam. Ideias absurdas. Cruzamentos sem sentido. Pálpebras que se abrem e... Aguardam. Naquele instante tudo se decide. 
     Há dias em que o diafragma não desce. A fisiologia contraria a função que lhe foi imposta pela natureza e teima em ceder a uma parte específica da massa miocárdica. Nesses dias, a apneia pode atingir vários graus, chegando às vezes a parecer total. Mas o ar terá de lá chegar, de uma forma ou de outra e, assim, minutos depois das pálpebras se abrirem e adivinharem o futuro desse dia, o corpo reage. E move-se, mecanicamente, em direcção a um objectivo mal definido, mal desejado, mas essencial. 
    O dia passa. Há minutos que parecem horas, horas que são dias. Mas ele passa... E nesse entretanto a apneia dissolve-se. Mistura-se com adrenalina, umas vezes. Noutras é empurrada pela memória. E, quando se dá conta, a noite chegou.
    Nestes dias, contudo, a noite traz os cheiros e sons de antes, imersos agora num ambiente estático e ruidosamente silencioso. O ar torna- se denso, poluído e, de novo, difícil de respirar. As pálpebras forçam-se a fechar, tentando transformar- se em cortinas de final de peça teatral. Mas revelam-se demasiado ambiciosas e o espectáculo continua, inundado por repuxos convulsivos de água e sal, difíceis de suster, contendo em si todo um dia de mágoas e saudades.
    Até que, por força do cansaço ou da química exterior, o sono regressa. E o ciclo reinicia-se.