segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Toxic

Still toxic, hypoxic

Tenho sono, sempre tanto. Não quero dormir, para não ter de acordar. Odeio acordar. Adoro adormecer, adoro dormir, odeio sonhar. Odeio acordar.

Still toxic, my hipoxic.

Sozinha. De novo e novamente. Reservo o lado direito, está vazio. Já foi o teu, não será mais. Ou será? Está vazio. E quieto. Já foi toca, já foi quente, foi suave, foi intenso. Já foi teu... e teu e teu. Está vazio.

Still toxic, beautiful hipoxic.

Não olho, não sinto, não sou. Está escuro e fechado. Está pesado de tanto pesar. Está duro e tapado. Está dorido de muito doer. Não há, não vai haver. Já foi, voltou a não ser.

Still toxic, smashing hypoxic.

Vem daí, aterra em cima de mim. Sou bem molinha, confia assim-assim. Vem depressa, aterra devagar. Sou algo antiga, podes reciclar. Vem ainda hoje, aterra a valer. Sou o que fui, ninguém vai perder.

Still toxic, unfinished hypoxic.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Quelóides

Tenho dispersos por todo o lado quelóides. Cicatrizes imensas e disformes que me toldam frequentemente o raciocínio e me aguçam os punhos mais do que nunca. Agregados de fibrina mutantes que se juntaram para fazer a sua festa dos horrores e deixar marcas que ninguém jamais conseguirá disfarçar. Desfilam alegremente por rotas paralelas, com cuidado imenso para não se cruzarem mas, no fundo, formam um conjunto único, intenso e demolidor.

Tenho os teus, que me deixaram obesa morbidamente em frente ao espelho, que me fizeram questionar odores ou sabores e, pior ainda, que me deixaram pequena, invisível, inexistente. Tenho os amargos mais apurados do teu abandono, da tua indiferença que me ajudou a aniquilar-me (ou desejar sê-lo). 

Mas tenho também os teus, vestidos de boa vontade e companheirismo, traduzidos numa placa de alisar madeira, que circula sobre mim como um atentado. Tenho o teu sofrimento sob a metamorfose da negligência de cuidados, das palas que te cegam os olhos, do que não dizes por errada segurança de uma presença que não é certa (mas que tem sido).

Tenho, ainda, os teus, cobardes, egoístas e alienados (como, aliás, a maior parte de todos eles), que me abordaram como mantas de seda e se despediram como ancinhos de vidro.

Quelóides que vejo quase todos os dias, quando acordo. E em quase todos os dias me pergunto: será hoje?

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Certezas


 Fecho a porta  oiço um vazio
vou querer sobreviver ao dia de amanhã

olhos, cenas que não vou lembrar
hei-de encontrar, dignificar o sol de uma manhã

e agora, fraco ou forte, só me resta ir
e acredito que no mundo há flores por abrir
mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu

Juntos sou eu
só eu

The Gift

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Sombras

There's no one left in the world 
I'm gunslingin'
Don't give a damn if I go
Down down down
I got a voice in my head that keeps singin'

My heart is a ghost town.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Coisas

"Um sol magnífico, o céu azul, mas ninguém com quem os partilhar, nada que fazer. É mais difícil viver assim no verão, da maneira como eu tenho vivido, quando os dias são tão longos, há tanta luz, tão pouca ajuda da noite, com toda a gente na rua a ser tão obviamente e tão agressivamente feliz. É esgotante, e faz-nos sentir ainda pior, por não nos podermos juntar à festa."


The Girl on The Train