sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Quelóides

Tenho dispersos por todo o lado quelóides. Cicatrizes imensas e disformes que me toldam frequentemente o raciocínio e me aguçam os punhos mais do que nunca. Agregados de fibrina mutantes que se juntaram para fazer a sua festa dos horrores e deixar marcas que ninguém jamais conseguirá disfarçar. Desfilam alegremente por rotas paralelas, com cuidado imenso para não se cruzarem mas, no fundo, formam um conjunto único, intenso e demolidor.

Tenho os teus, que me deixaram obesa morbidamente em frente ao espelho, que me fizeram questionar odores ou sabores e, pior ainda, que me deixaram pequena, invisível, inexistente. Tenho os amargos mais apurados do teu abandono, da tua indiferença que me ajudou a aniquilar-me (ou desejar sê-lo). 

Mas tenho também os teus, vestidos de boa vontade e companheirismo, traduzidos numa placa de alisar madeira, que circula sobre mim como um atentado. Tenho o teu sofrimento sob a metamorfose da negligência de cuidados, das palas que te cegam os olhos, do que não dizes por errada segurança de uma presença que não é certa (mas que tem sido).

Tenho, ainda, os teus, cobardes, egoístas e alienados (como, aliás, a maior parte de todos eles), que me abordaram como mantas de seda e se despediram como ancinhos de vidro.

Quelóides que vejo quase todos os dias, quando acordo. E em quase todos os dias me pergunto: será hoje?

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