Desce as escadas, saltitando os degraus dois a dois, como se isso pudesse antecipar o seu habitual atraso. Desde há meses que os dias começam mais tarde... O cérebro demora mais tempo a processar as mensagens que a retina lhe transmite, ao acordar.
Roda a chave do carro, deixando que o novo ruído lhe transmita alguma sensação de reconhecimento e conforto - tudo mudou, mas àquele ruído foi fácil adaptar-se. Avança a uma velocidade moderada, alternando entre a cautela e a pressa. Ao fundo, música... conjunto de sons do qual de desabituou, excepto naquele ambiente.
Mas nesse dia as colcheias (e afins) assentam-lhe bem e, estranhamente, apercebe-se de que conseguiu respirar melhor. E quase que podia jurar que, sem pedir licença, um sorriso tinha tomado conta de si, com um aroma floral, primaveril. E, durante esse tempo, sente o coração cheio.
Talvez por isso também, pouco tempo depois, as lágrimas começam a cair. Duas a duas, quatro a quatro. Sem controlo, sem filtro. Contudo, sem desespero. Só lágrimas simples. De perda, de saudade, mas também de memórias antigas... e recentes.
Tudo está desarrumado, caótico, perdido, à deriva... No entanto, nesse momento, o caos não a paralisa ou faz querer desistir. Apesar do medo que causa, sente a alma cheia, de novo. Cheia de tudo, de todos. Tão cheia que dói. De boa, de imensa, de estranha.
De boa... De imensa... De estranha.
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